sexta-feira, abril 21, 2006

Alexandre Belo

Fomos companheiros de carteira durante a 2ª e 3ª classes na Instrução Primária da escola 4-70. No Campo de Stª Clara, nos longínquos anos de 1927/28 do Século XX . Ocupávamos uma carteira da frente, face à Dª Clotilde, professora que nunca hei-de esquece,passados que são setenta e oito anos. A razão porque estávamos na carteira da frente era, quanto mim pelo relato que fiz em “Escola fechada” Quanto ao Alexandre, porque foi sempre o melhor aluno. Mas comecemos pelo princípio que é por onde sempre começam as boas e as más coisas. O Alexandre nasceu no Beco do Belo à beirinha de Alfama, já perto do Rio. O que vai seguir-se é meramente especulativo: é difícil crer na coincidência, de uma família de apelido Belo se instalar no Beco do mesmo nome. A hipótese que perfilho, pelo que conheci do Alexandre, é que a Mãe lhe terá posto o nome do local onde vivia, por não lhe terem deixado outro para o legitimar. O Alexandre era um pouco mais velho do que eu. Entrava todos os dias na Escola com meia hora de atraso, Não às oito e meia mas às nove horas com autorização da Dª Clotilde, nome que não me canso de evocar. Quando entrava na aula, trazia os cadernos embrulhados no “saco dos jornais”. O Alexandre era Ardina. Levantava-se às cinco da manhã para ir às” Casas de Venda” dos jornais no Bairro Alto, levantar os que lhe cabiam, fazia a sua venda e vinha para a Escola com meia hora de atraso e QUATRO de corrida pela Cidade. À tarde a mesma labuta. Cheguei a vê-lo fazendo os trabalhos de casa . . . na rua, á porta com um banco a servir de carteira. Sentado num banco. Lá dentro estava escuro e o petróleo era caro. Era ali que ele escrevia e fazia as contas em cadernos impecáveis com uma boa letra que a Professora, a Dª Clotilde, exibia à Classe, ao lado dos meus “gatafunhos”, a que, até hoje, me tenho mantido inabalavelmente fiel.
Acabada a Escola cada um seguiu o seu destino e ainda nos encontrámos de quando em vez, ao sabor do acaso. Ele seguia vendendo jornais até que, já adulto, casado e julgo que com filhos, resolveu vender “a Venda”. Parece redundante, mas tem explicação. Os vendedores de jornais regiam-se por um código que entre outras coisas estabelecia zonas onde cada um vendia sem ser atropelado nem atropelar outros. A isso se chamava a “Venda”. O Alexcandre tinha uma boa Venda, mas o seu sonho era ser estivador, entre outros motivos, porque se ganhava melhor. Não sei se mais alguma coisa o motivara. Raras vezes o encontrava, e foi num desse breves encontros que ele me disse que tinha vendido a Venda e comprado um lugar na Estiva.. Tudo isto parece estranho. É. Mas tem uma explicação simples. Na Estiva vigorava uma “lei” mafiosa: os encarregados só davam trabalho a quem eles queriam, por amizade – pouco credível - ou por “compra”. Havia algumas excepções, de poucos que se queriam retirar, e vendiam o lugar tal como o Alexandre com a “Venda” . Mas ainda havia uma ditadura dos encarregados. Mesmo aqueles que já haviam “comprado” o lugar, se não caíam nas suas boas graças e não “entravam” de vez em quando, bem podiam vir de madrugada ao “conto” que nunca eram contados. Encontrei algumas vezes o “Alexandre Estivador”. Até que uma “lingada” caindo do guindaste o atirou para o fundo do porão. E matou o sonho de uma Vida.

A Vida do Alexandre Belo!

Deus tem muitas distracções...